PROJETO MEMÓRIA DA CAPOEIRA
Com
o advento das novas tecnologias de comunicação na cultura humana no século
XXI, é possível obter, em um átimo, muito mais informação do que poderíamos
absorver em uma vida inteira. No entanto, são as informações superficiais que
interessam à maioria da população, aquelas que prescindem do uso do
pensamento ou raciocínio, como a cultura da grande mídia, citada como
“consenso fabricado” pelo filósofo e lingüista contemporâneo Noam
Chomsky.
Apesar
de toda esta informação a que o Homem tem acesso, ainda não lhe foi possível
diminuir o impacto de suas contradições, que se apresentam em todas as áreas.
Exemplo disto é a humanidade ter a capacidade de produzir alimentos para o próprio
consumo e, mesmo assim, existir miséria e inanição para grande parte da
população de todos os continentes. Causa também embaraço a manutenção do
trabalho escravo em diversas regiões, contrapondo-se ao avanço da robótica
que atua substituindo o trabalho humano.
Nós
acreditamos que a cultura humana pode se encaminhar para outras formas de
organização social e lutamos por isto!
Defendemos
o acesso à informação com o olhar crítico como uma via para atingir estas
novas formas de organização social, como a Federação Anarquista de Capoeira
Angola (F.A.C.A.), que criamos em 2002 com duas propostas básicas: divulgar e
pesquisar a Capoeira Angola e o Anarquismo, ambas “culturas marginais”,
tanto pela falta de informações disponíveis, quanto pelas deturpações
propositais do status quo. Deste modo, podemos afirmar que a F.A.C.A. é
um microcosmo de organização autogestiva e anarquista, em que pretendemos
desmistificar o conceito usual de anarquia como bagunça e nos aproximar do
aforisma do geógrafo Elisée Reclus: "A anarquia é a máxima expressão
da ordem". Não pretendemos, pois, impor uma visão de mundo como
verdade absoluta, mas desejamos expor a nossa SINCERIDADE.
Desta
forma, assumimos que a proposta que ora se apresenta foi idealizada e será
produzida nesta instância autogestiva – a F.A.C.A. – que começa, este ano,
a resgatar a MEMÓRIA ORAL dentro do universo da “capoeiragem”, registrando,
documentando e divulgando este cenário popular por meio da informação histórica;
é a nossa maneira um projeto tão inspirador quanto o da nova Biblioteca de
Alexandria no Egito (www.bilbalx.gov.eg),
a qual pretende disponibilizar pela Internet, daqui a cinco anos, três milhões
de livros (ano passado já possuía 80 mil obras digitalizadas).
Pretendemos
assim reverter o atual quadro de escassez de informações históricas no
universo da Capoeira, fato este que parece paradoxal frente à presença desta
manifestação cultural (encarada por muitos como esporte) em mais de cento e
trinta países e inúmeras formas de organização como Confederações, Ligas,
Fundações e até mega-Grupos que se confrontam politicamente. A despeito da
existência de milhares de praticantes que se dividem em estilos variados dentro
deste ambiente, grande parte da história da capoeira ainda se encontra apenas
na memória de capoeiristas antigos. São vários os motivos que supomos
contribuírem para isto:
·
competitividade política entre grupos, cada qual buscando apresentar a SUA
VERDADE;
·
retirada recente da prática da capoeira do código penal; proporcionalmente à
sua história (mais de quatrocentos anos de desenvolvimento, com tradições
milenares), a prática da capoeira deixou de ser crime previsto no código penal
há pouco tempo (menos de ¾ de século);
·
destruição dos arquivos oficiais referentes à escravidão no Brasil, em
15/12/1890, pelo então Ministro da Fazenda Rui Barbosa, com a alegação de
“apagar da memória brasileira esta lamentável instituição”, para evitar
que ex-proprietários de escravos buscassem uma compensação dos prejuízos que
tiveram com a abolição da escravatura, a qual ocorrera dois anos antes;
·
busca, pela oficialidade atual, de enquadramento da capoeira, uma rica manifestação
cultural, dentro da disciplina Educação Física, política essa que valoriza
jovens que passam pelo ensino acadêmico e desvaloriza os maiores conhecedores
desta cultura, os mestres antigos, que são, em muitos casos, analfabetos.
A
F.A.C.A. busca este ano, reiteramos, uma forma de resgate desta cultura popular
– que, atualmente, distancia-se de suas raízes, pelo próprio processo de
modificação de conceitos através dos tempos. Para tanto, procuramos
companheiros que se associem a nós na realização do Projeto Memória da
Capoeira.
A
F.A.C.A. age assim, com orgulho, na contra-mão da história.
OBJETIVOS
Introdução
Pretendemos
organizar um ARQUIVO ABERTO da “capoeiragem” atual, sem restrições quanto
aos estilos; nosso viés prioritário é o da ANTIGÜIDADE. Apesar de a F.A.C.A.
praticar o estilo Angola, entendemos que os limites reais entre os estilos são
muito tênues, especialmente para as pessoas (mestres) que praticam capoeira há
mais de vinte ou trinta anos. (Rui Takeguma tem uma visão própria sobre os
estilos, veja o artigo publicado no site da internet:
http://brancalulaleone.vila.bol.com.br/qualeasua.html)
Contextualização
Os estudos sobre a cultura
afro-brasileira têm dedicado mais espaço (por motivos que não nos interessam
aqui especificar) aos ramos "quetos", "nagôs" ou
"iorubas", como no caso das pesquisas sobre o Candomblé.
Entendemos que a Capoeira Angola nasceu da tradição dos "bantos",
provavelmente a partir do ritual N'golo, que acontecia durante a festa Efundula
da aldeia dos Mucopes, de acordo com pesquisas do Mestre Moraes do grupo GCAP.
De acordo com Swai Roger do Grupo N'zinga, apenas nos últimos tempos as
manifestações de origem banto têm recebido, por parte das ciências sociais,
maior atenção, como as recentes contribuições sobre os inúmeros congados do
interior do país, os maracatus de Pernambuco, o Jongo do sudeste, as diversas
formas e musicalidades do Samba e os Bois-Bumbás do Maranhão, para citar
alguns exemplos. O autor afirma ainda que "para que o tão vasto legado
cultural banto tenha seu justo reconhecimento, ainda há praticamente todo um
Brasil, sincrético, porém denso, vasto e diverso a ser redescoberto"
(Revista Toques de Angola, número zero. Brasília: 2003).
PROCEDIMENTOS
A
produção deste ARQUIVO da Memória da Capoeira se dará, prioritariamente,
através de GRAVAÇÃO de DEPOIMENTOS DE MESTRES DE CAPOEIRA. Temos uma lista de
mestres que pretendemos convidar, começando pela cidade de São Paulo,
ampliando, na medida do possível, para o interior e para outros estados
brasileiros.
Além
de DEPOIMENTOS, pretendemos REGISTRAR A MUSICALIDADE destes Mestres, seja
convidando-os para um trabalho em estúdio, seja registrando suas rodas de
capoeira.
Passada
esta etapa inicial, pretendemos APRESENTAR este trabalho à população em
geral. Pretendemos disponibilizar o comércio de CD’s e/ou Vídeos e produzir
EVENTOS CULTURAIS com palestras/mesas redondas e rodas de capoeira.
Não
pretendemos destrinchar o Projeto a priori, pois nossa forma de produção
se adaptará de forma orgânica, levando-se em conta as seguintes variáveis:
·
nossa disponibilidade pessoal – não dispomos de recursos financeiros
iniciais, e, sim, conhecimento e vontade;
·
disponibilidade de datas e desejos individuais de cada mestre;
·
possibilidade de surgimento de apoios culturais para os EVENTOS e LANÇAMENTOS
futuros do ARQUIVO;
·
disponibilidade de equipamento e estúdio para a realização da primeira etapa
(gravação).
IDEALIZADOR
Este
Projeto é um sonho antigo de Rui Takeguma, o membro da FACA com maior
tempo de prática na capoeira angola. Rui Takeguma é Produtor de Somaiê
(somaterapeuta, produtor de cultura libertária e professor de capoeira angola)
e, nos últimos anos, vem fazendo um trabalho individual de pesquisa neste
universo, seja arquivando vídeos, fotografias e material impresso de capoeira,
seja produzindo entrevistas com mestres antigos da Bahia e Minas Gerais.
Rui
Takeguma, quando ainda ligado a Roberto Freire e a Soma, participou da implantação
do PRIMEIRO GRUPO DE CAPOEIRA DESTINADO SOMENTE AO ESTILO ANGOLA DA CAPITAL DE SÃO
PAULO. Isso aconteceu em 1993, no antigo espaço cultural “TESÃO – A Casa
da Soma” em Perdizes, Zona Oeste. Nestes dez anos, vários mestres e
contramestres migraram de outros estados para “Sampa”, mas a capoeira angola
continua minoritária na cidade, representando entre 1 e 3% do universo da
“capoeiragem”. Com sua experiência, Rui Takeguma possui contatos e
conhecimento sobre este ambiente múltiplo que é o da capoeira, além de relações
com Mestres e Contramestres do universo que compõem este cenário.
CONVITE
À ASSOCIAÇÃO CACHUERA!
A
F.A.C.A. realizará este Projeto Memória da Capoeira à medida que angarie
apoios e contatos. Nosso entusiasmo foi despertado com o contato estabelecido
através de Gabriel Varalla com a Associação Cultural Cachuera!, contato este
que gerou uma produção conjunta na área da Fotografia e Pedagogia Libertária
(o Prêmio Walter Firmo de Fotografia), realizado por Rui Takeguma nesta associação
em março deste ano.
Portanto,
convidamos a Associação Cultural Cachuera! a co-produzir este Projeto. Quanto
à forma e detalhes desta produção, nos espelhamos no aforisma de Buda: "Faça
Sendo, Aprenda Fazendo", que também transportamos para nossa vida como
um todo. Caso haja interesse, marcaremos uma reunião para a definição dos
primeiros passos, ou seja, a gravação dos primeiros mestres. Numa segunda
etapa, realizaremos um evento cultural com os primeiros mestres registrados. Na
terceira etapa, confeccionaremos o material destinado ao grande público. Dessa
forma, poderemos dar continuidade à pesquisa, num segundo módulo, ampliando os
mestres participantes. O ambiente da capoeira é muito amplo, de uma maneira tal
que permite a confecção de diversos módulos neste projeto.
FECHAMOS A PARCERIA COM O CACHUERA!...
COMPROMISSO
COM OS MESTRES PARTICIPANTES
Aos
Mestres de Capoeira que participarem do Projeto, comprometemo-nos a:
·
explicitar todas as informações de produção e desenvolvimento da pesquisa;
·
dividir os benefícios de eventuais patrocínios ou apoios culturais. Num
primeiro momento não pretendemos buscar apoio financeiro, e, sim, material;
·
pagar royalties – em material – aos mestres participantes do Projeto
na produção de CD’s, Vídeos e/ou Livros/revistas
(no
dia 28 de Maio de 2003, foi encaminhado este Projeto aos Mestres Ananias, Kenura
e Brasília; todos com grupos na cidade de São Paulo. Convidamos ainda Mestre
Sombra de Santos, Mestre Cobrinha Mansa da FICA)
A
FACA se caracteriza por ser uma organização informal que se concretiza em
ENCONTROS e PRODUÇÕES. O contato escolhido para o Projeto Memória da Capoeira
é o GRUPO ANARQUISTA IÊ DE CAPOEIRA ANGOLA, cujo professor responsável é Rui
Takeguma.
Endereço:
R. Caiubi, nº 1082 – Perdizes – SP-SP Cep 05010-000
Fone:
(11) 3864-7046
Página
na internet: http://f-a-c-a.vila.bol.com.br
e-mail:
f.a.c.a@grupos.com.br
Participantes
da 6ª FACA em 2003:
Cleiri
Cardoso, Denise Alves, Gabriel Varalla, Ká (Wanderson Ribas), Mirko Lerotic
Filho, Richard Abreu, Rui Takeguma e Simone Moerdaui.
OBSERVAÇÃO:
1- Idealizamos o Projeto Memória da Capoeira
2- Convidamos o Cachuera!, que topou o Projeto
3- Após tentativa de aproximação com M. Ananias via o Minhoca (no espaço Jacutinga em Moema), tentamos nova aproximação e descobrimos que o Mestre nem recebeu nosso CD, nem o Projeto acima
4- Fechamos um evento inicial, e na reta final, o Cachuera! só queria gravar o Mestre Ananias, sem abrir espaço para Mestre Primo, nem Rui Takeguma e Cenorinha
5- Decidimos tocar o Projeto e dispensar o Cachuera!, pegamos o apoio do Flôr de Liz (alimentação) e a loja Rabo de Arraia, que além da divulgação virtual emprestaria uma filmadora, na véspera o Rabo de Arraia furou sem dar satisfação; mesmo com tantos boicotes REALIZAMOS o EVENTO na 7ª FACA de 31/10/03 a 02/11/03
6- Após alguns meses com problemas da entrega do Espaço Cultural Tesão e problemas técnicos no computador do responsável pela gravação digital, finalizamos o CD duplo e ao vivo em MAIO de 2004
7- Acompanhe o projeto no site: Http://memoriazero.vila.bol.com.br